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Por que é preciso testar em massa   The New Yooker Times 2136 49746587277 c7cf1e39d1 k   urandir   MUNDO   Por que é preciso testar em massa
Em vez de debater a cloroquina, o Brasil deveria tratar de ampliar sua capacidade de testes O Ministério da Saúde fez ontem o anúncio mais relevante até agora no combate à Covid-19: distribuirá a partir da próxima segunda-feira a todos os estados 870 mil testes para o novo coronavírus, doados pelas empresas Vale e Petrobras. Uma segunda leva da Vale, somando 430 mil testes, deverá complementar essa remessa ao longo da próxima semana, perfazendo 1,3 milhão de testes.
Até ontem, o país contava com 651,4 mil testes ao todo, mas aplicara, segundo o ministério, menos de 63 mil, cerca de 296 para cada milhão de habitantes. É uma fração ínfima perto da necessidade. Para comparar, os Estados Unidos, que demoraram a começar a testar sua população, já haviam aplicado mais de 2,2 milhões, ou 6.714 por milhão de habitantes. A Coreia do Sul, 495 mil, ou 9.649 por milhão.
Enquanto o Brasil se vê tomado por um debate estéril em torno da eficácia da cloroquina no tratatamento dos pacientes de Covid-19 – uma questão científica em aberto –, perde a oportunidade de fazer pressão por aquilo que com certeza fará diferença na redução dos casos da doença: a ampliação dos testes. Trata-se de uma necessidade crítica para medir o estrago já causado (leia mais aqui) e para implementar qualquer estratégia eficaz.
Foram testes disseminados, ao lado das medidas de isolamento social dos infectados, que levaram a Coreia do Sul ao sucesso no controle do primeiro surto do novo coronavírus, sem a necessidade de decretar quarentenas radicais (leia mais neste post da série sobre as estratégias contra o vírus). Depois de enfrentada a primeira onda de contágio no Brasil, o alívio às restrições ao movimento e às atividades só poderá ser decidido de modo responsável com base nas informações dos testes.
Além da Coreia, a Alemanha é outro exemplo de país onde os testes resultaram numa estratégia mais eficaz de combate ao vírus. Graças a uma operação coordenada em todos os laboratórios, o país realizara até domingo 1,32 milhão de testes, ou 15.730 por milhão de habitantes, 63% mais que a Coreia. Com aproximadamente o mesmo número de casos que a França (113 mil), a Alemanha havia registrado até horas atrás apenas 2.349 mortes, ante 10.869 no país vizinho.
É graças ao uso desde cedo dos testes que a Alemanha tem hoje noção mais clara da extensão da Covid-19 no país. Mais gente é testada, mais casos leves e assintomáticos são levados em conta, há maior precisão ao destinar recursos e menos mortes. Resultado: em países que demoraram a começar aplicar testes em massa, a letalidade é altíssima (12,7% na Itália ou 10% na Espanha). Na Alemanha, está hoje pouco abaixo de 2,1%.
Disseminar os testes é importante por dois motivos. O primeiro é, como se vê na Alemanha, dirigir esforços rapidamente às áreas mais afetadas, de modo a tornar o combate mais eficaz. Para isso, são importantes os testes que detectam a presença do vírus em geral na saliva, multiplicando seu material genético por meio de uma tecnologia conhecida como “reação em cadeia da enzima polimerase” (ou pela sigla em inglês, PCR). No Brasil, 300 mil testes doados pela Petrobras usam essa técnica.
O segundo motivo é científico. A testagem disseminada permite dirimir a principal dúvida que persiste sobre a Covid-19: sua letalidade. Na definição dos epidemiologistas, esse número representa a quantidade de pessoas que morrem dividida pelo número de casos confirmados (é conhecido em inglês como “case fatality rate”, ou pela sigla CFR). Quanto maior o número de testes, maior a certeza sobre os casos confirmados e sobre a incidência real do vírus na população.
Uma das principais dificuldades para medir a CFR da Covid-19 é o longo tempo de incubação (até duas semanas) e, consequentemente, a grande quantidade de infectados que não apresentam sintomas. Outra incógnita, decorrência disso, é a proporção de infectados que já contraíram o vírus, se recuperaram e são imunes.
Saber quantos são é fundamental para avaliar o nível de imunidade coletiva já alcançado na população. Quando perto de 60% das pessoas estiverem imunes ao novo coronavírus, ele para de circular naturalmente, por não encontrar mais vítimas suficientes para infectar. Os críticos do isolamento social afirmam que há bem mais infectados do que parece e podemos já estar perto desse nível.
Como não há mais material genético do vírus a coletar nos imunes, apenas testando o sangue de amostras significativas da população será possível avaliar quantos já tiveram a doença de fato, estimar a necessidade de tratamentos e recursos de saúde – e, com base na CFR, projetar com precisão o número de mortos esperados ao fim da epidemia. Além, é claro, de conhecer o nível de imunidade coletiva já atingido, para calibrar as políticas de isolamento social e permitir a retomada das atividades.
Para tudo isso, é necessário um segundo tipo de teste, capaz de verificar a presença de anticorpos ao novo coronavírus no sangue. São dessa natureza os 570 mil testes doados pela Vale que começarão a ser distribuídos na semana que vem.
O Brasil faria bem se, em vez de se perder no debate sobre tratamentos em fase experimental – cuja aplicação deve, naturalmente, caber aos médicos –, entendesse que a prioridade é ampliar a capacidade de testes e isolamento dos infectados. Tanto para agora quanto para o futuro, quando dependerá disso o retorno da vida ao normal. Querer apressar o fim das quarentenas sem testes significa apenas matar mais gente.

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fonte: g1.globo.com revisão Urandir Martinez